A longa evolução das ideias sobre Estado, políticas públicas e territórios – para além das políticas e abordagens territorialmente cegas

Autores

  • Arilson Favareto Universidade Federal do ABC, Programa de Pós-graduação em Planejamento e Gestão do Território, São Bernardo do Campo, SP, Brasil / Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, Núcleo de Sustentabilidade, São Paulo, SP, Brasil https://orcid.org/0000-0003-1825-7165
  • Gabriela Lotta Fundação Getúlio Vargas, Departamento de Gestão Pública, São Paulo, SP, Brasil / Universidade de São Paulo, Centro de Estudos da Metrópole, São Paulo, SP, Brasil

DOI:

https://doi.org/10.22296/2317-1529.rbeur.202229

Palavras-chave:

Estado, Políticas Públicas, Territórios, Territorialização, Políticas Territorialmente Cegas

Resumo

Na sociologia e na ciência política, a categoria território é subjacente a uma longa trajetória de estudos clássicos sobre o Estado – não há Estado sem território. Já a associação entre as ideias de território e políticas públicas, especificamente, é bem mais recente. O que se pretende demonstrar neste texto é que, apesar dessa inovação discursiva, ainda prevalece na literatura uma visão passiva dos territórios, na qual eles são vistos apenas como espaços nos quais incidem as políticas ou nos quais se materializam processos econômicos e sociais exógenos, como a financeirização ou o domínio do capital, dando forma ao que será chamado de políticas e abordagens territorialmente cegas. Para isso, são realizados dois movimentos: a análise da literatura sobre Estado e políticas públicas, para mostrar como, nela, evolui o tratamento dos territórios ao longo do tempo; e a análise da literatura sobre território para, inversamente, evidenciar como o Estado e as políticas públicas são nela tratados. Ao final, é apresentada uma agenda de pesquisas que visa completar essa transição nos quadros cognitivos voltados à análise das interdependências entre estes três domínios: o Estado, as políticas públicas e os territórios.

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Biografia do Autor

Arilson Favareto, Universidade Federal do ABC, Programa de Pós-graduação em Planejamento e Gestão do Território, São Bernardo do Campo, SP, Brasil / Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, Núcleo de Sustentabilidade, São Paulo, SP, Brasil

Sociólogo. Doutor em Ciência Ambiental. Professor da Universidade Federal do ABC (UFABC) e pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). Bolsista produtividade do CNPq.

Gabriela Lotta, Fundação Getúlio Vargas, Departamento de Gestão Pública, São Paulo, SP, Brasil / Universidade de São Paulo, Centro de Estudos da Metrópole, São Paulo, SP, Brasil

Administradora pública. Doutora em Ciência Política. Professora da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e pesquisadora do Centro de Estudos da Metrópole (CEM). Bolsista produtividade do CNPq.

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Publicado

2022-10-11

Edição

Seção

Dossiê: Políticas públicas e estatalidade