Mulheres em ação e categorias em movimento: a luta pelo território na Comunidade Ribeirinha do Porto do Capim

Autores

  • Helena Tavares Gonçalves Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, Campinas, SP, Brasil

DOI:

https://doi.org/10.22296/2317-1529.rbeur.202125

Palavras-chave:

Gênero, Território, Identidade, Patrimônio cultural, Memória

Resumo

Esse artigo procura levantar algumas reflexões em relação ao protagonismo da Associação de Mulheres do Porto do Capim na luta do território para fins de moradia. O debate envolve questões relacionadas ao direito à cidade através do agenciamento de noções de identidade, memória e patrimônio cultural, conduzida pelos moradores locais. Contudo, são as mulheres, organizadas politicamente, que estão à frente dos embates travados com o poder público. Procura-se mostrar em que medida um movimento de mulheres, ainda que não levante bandeiras feministas, é capaz de tencionar as estruturas do patriarcado ao negarem a possibilidade de remoção da comunidade e de propor formas alternativas de intervenções no território que garantam a manutenção do cotidiano das famílias, levando em conta a localização e mobilidade urbana, a instalação de serviços públicos de saúde e educação, de saneamento básico e qualificações dos espaços de uso coletivo do bairro.

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Biografia do Autor

Helena Tavares Gonçalves, Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, Campinas, SP, Brasil

Com a graduação em antropologia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), tive a oportunidade de participar de projetos de extensão universitária junto ao Programa Comunidades Quilombolas, ocasião de primeiro contato com grupos e comunidades tradicionais. Ainda na graduação desenvolvi a pesquisa de iniciação científica Apropriações e Negociações do popular: A Festa de Iemanjá (BA), financiada pelo CNPq e premiada com Mérito Científico pela mesma instituição. Entre 2011 e 2014 realizei os estudos de mestrado no Programa de Preservação do Patrimônio Cultural, oferecido e com financiamento do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), que teve como resultado a dissertação O Porto e a Casa: dinâmicas de transformação no uso dos espaços no centro histórico de João Pessoa, o que proporcionou o contato inicial com os moradores do Porto do Capim e minha participação junto aos movimentos sociais locais na luta contra a ameaça de remoção de seu território. Nessa ocasião optei por investigar as relações de conflito e negociação internas ao Iphan, em relação à remoção dos moradores do centro histórico em função de projetos de revitalização previstos para a área. Em 2014, atuei como servidora pública na Superintendência do Iphan no Amapá, ocupando o cargo de coordenação técnica da unidade, me envolvendo na gestão da política pública de patrimônio cultural em suas diversas vertentes. Após essa experiência, tive a oportunidade trabalhar em projeto da Unesco para o acompanhamento das políticas de salvaguarda do patrimônio imaterial na Superintendência do Iphan de São Paulo. Em 2017 ingressei no Programa de Doutorado em Ciências Sociais da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e, contando com o financiamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes/CNP), retomo o tema da dissertação e procuro investigar as formas de organização social e políticas dos moradores do Porto do Capim na luta pela legitimação do uso do espaço para fins de moradia. Esse artigo é resultado tanto da reflexão acadêmica proporcionada pelos cursos de pós-graduação e experiência profissional na área do patrimônio cultural, quanto da minha participação e atuação nos movimentos sociais locais, ligados à reivindicação dos direitos dessa população viver em seu território tradicional.

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Publicado

2021-11-29

Edição

Seção

Dossiê: Território, gênero e interseccionalidades