Luiz Antonio Machado da Silva: um intelectual da mais “fina estampa” nas Ciências Sociais brasileiras

Autores

  • Márcia Pereira Leite Universidade Federal do Rio de Janeiro, Departamento de Sociologia, Rio de Janeiro, RJ, Brasil https://orcid.org/0000-0001-6279-4692
  • Marcella Araujo Universidade Federal do Rio de Janeiro, Departamento de Sociologia, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
  • Palloma Menezes Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Instituto de Estudos Sociais e Políticos, Rio de Janeiro, RJ, Brasil https://orcid.org/0000-0002-8462-2549

DOI:

https://doi.org/10.22296/2317-1529.rbeur.202121pt

Palavras-chave:

Marginalidade Urbana, Vida Cotidiana das Camadas Populares, Integração Social e Crise do Trabalho, Informalidade, Crime Violento, Favelas e Periferias Urbanas

Resumo

Neste artigo, recuperamos parte do legado de Luiz Antonio Machado da Silva, vitimado pela Covid-19 em 2020, para as Ciências Sociais brasileiras e, mais especificamente, para a Sociologia Urbana. Esse foi o campo ao qual Machado se dedicou durante mais de cinquenta anos de pesquisas e estudos, abrindo novos caminhos e perspectivas analíticas para o estudo da vida nas “margens” (favelas e periferias das grandes cidades – pensadas a partir do Rio de Janeiro, cidade onde vivia e realizava suas pesquisas). Machado analisou, em diferentes contextos, a produção da “marginalidade urbana” pelo Estado, procurando compreender as experiências de vida, as estratégias de sobrevivência, assim como a luta política e os desafios das camadas populares urbanas. Também se dedicou a analisar, especialmente a partir dos anos 1990, os efeitos do esgarçamento do mundo do trabalho e da regulação estatal que outrora o acompanhava, garantindo um mínimo de direitos e alguma integração social. Assim, dirigiu seus esforços analíticos para compreender o sentido e os usos da categoria de informalidade nesse contexto e, sobretudo, mostrou-se atento e preocupado com os efeitos do surgimento da criminalidade violenta no seio de um urbano dilacerado pela crise do trabalho, como fundamento social dos tempos de desconstrução de nosso paradigma institucional e político de integração social. Sendo impossível dar conta da grandiosidade de sua obra, as autoras buscaram reconstruir parte de sua trajetória de pesquisa e de sua contribuição analítica para a Sociologia Urbana em diferentes contextos. Também se enfatiza uma face pouco conhecida de Machado: a de intelectual público que sempre buscou intervir no debate público sobre o lugar das classes populares urbanas na cidade.

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Biografia do Autor

Márcia Pereira Leite, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Departamento de Sociologia, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

Professora associada da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), atuando na área de Sociologia Urbana na graduação (DSOC/ICS), na pós-graduação (PPCIS/Uerj) e na especialização em Sociologia Urbana dessa universidade. Bacharel em Sociologia e Política pela PUC-Rio, mestre em Ciência Política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj) e doutora em Sociologia Urbana pelo Programa de Pós-graduação em Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGSA/UFRJ). Pós-doutorado em Sociologia Urbana pela École des Hautes Études en Sciencies Sociales (EHESS), sob supervisão do prof. Michel Wieviorka, e no Iuperj, sob supervisão do prof. Luiz Antonio Machado da Silva. Suas pesquisas e publicações versam sobre os temas sociabilidade e ação coletiva em favelas; religião e política em movimento; violência, território e segregação; Estado, territórios e mercados; guerras e pacificações – dispositivos e experimentos. É curadora da coleção Engrenagens Urbanas da Mórula Editorial e membro do Conselho Editorial do Dicionário de favelas Marielle Franco (http://www.wikifavelas.com.br), sediado na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Marcella Araujo, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Departamento de Sociologia, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

Professora do Departamento de Sociologia, no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Bacharel em Ciências Sociais, mestre (PPGSA/UFRJ) e doutora em Sociologia pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Iesp/Uerj). É uma das coordenadoras do Urbano – Laboratório de Estudos da Cidade (IFCS/UFRJ). Faz pesquisa sobre casa e trabalho, políticas de habitação social, infraestruturas urbanas e produção da cidade.

Palloma Menezes, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Instituto de Estudos Sociais e Políticos, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

Professora de Sociologia do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Iesp-Uerj). Bacharel em Ciências Sociais pela mesma instituição, mestre e doutora em Sociologia, respectivamente, pelo antigo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj) e pelo Iesp/Uerj, bem como pelo Department of Social and Cultural Anthropology da Vrije Universiteit Amsterdam. Realizou estágio pós-doutoral no Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getulio Vargas (CPDOC/FGV). Atua como coordenadora de pesquisa do Dicionário de Favelas Marielle Franco (http://www.wikifavelas.com.br) sediado na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Tem experiência na área de sociologia, com ênfase em sociologia urbana e sociologia da violência, atuando principalmente em pesquisas sobre favelas, sociabilidade, violência e conflitos urbanos.

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Publicado

2021-09-04

Edição

Seção

Artigos - Território, Cidadania e Direitos