Comunidades, modo de usar: desvendando guias, manuais e relatórios da mineração

Autores

  • Raquel Giffoni Pinto Universidade Federal Fluminense, Departamento de Análise Geoambiental, Niterói, RJ, Brasil
  • Maíra Sertã Mansur Universidade Federal de Juiz de Fora, Grupo de pesquisa e extensão Política, Economia, Mineração, Ambiente e Sociedade (PoEMAS), Juiz de Fora, MG, Brasil https://orcid.org/0000-0002-2833-813X
  • Cristiana Losekann Universidade Federal do Espírito Santo, Departamento de Ciências Sociais, Vitória, ES, Brasil

DOI:

https://doi.org/10.22296/2317-1529.rbeur.202407pt

Palavras-chave:

Setor Extrativo, Conflitos Ambientais, Riscos Sociais, Comunidades Atingidas, Corporações, Neoextrativismo

Resumo

Nos últimos vinte anos, observou-se um aumento dos conflitos ambientais relacionados às atividades de mineração em diversas partes do mundo. A fim de compreender como os agentes do setor extrativo descrevem estes conflitos e de que forma têm atuado para respondê-los, este artigo analisará dois conjuntos de publicações produzidos na última década. Os relatórios de riscos e tendências do setor extrativo elaborados pelas consultorias Ernst & Young, PricewaterhouseCoopers, Deloitte e KPMG e três manuais de relacionamento com comunidades do Instituto Brasileiro de Mineração, da Confederação Nacional da Indústria e do Conselho Internacional de Mineração e Metais. Identificamos que a produção e a circulação destes materiais integram o conjunto de práticas autoritárias das corporações extrativas em pelo menos três dimensões: i) a compreensão de que atores sociais organizados que atuam na defesa dos territórios são riscos a serem gerenciados; ii) à difusão de técnicas de “diálogo” e “participação social” utilizadas para a identificação e classificação dos atores sociais e iii) a promoção da ideia de que o destino do território está inelutavelmente ligado à corporação.

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Biografia do Autor

Raquel Giffoni Pinto, Universidade Federal Fluminense, Departamento de Análise Geoambiental, Niterói, RJ, Brasil

Doutora em Planejamento Urbano e Regional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Mestre em Sociologia e Antropologia pela UFRJ. Bacharel e licenciada em Ciências Sociais pela UFRJ. Professora do Departamento de Análise Geoambiental da Universidade Federal Fluminense e do curso de Ciência Ambiental (UFF). Pesquisadora do grupo Política, Economia, Mineração, Ambiente e Sociedade (Poemas), do Laboratório de Estudos de Movimentos Sociais e Territorialidades (Lemto/UFF) e do coletivo de pesquisa Desigualdade ambiental, economia e política.

Maíra Sertã Mansur, Universidade Federal de Juiz de Fora, Grupo de pesquisa e extensão Política, Economia, Mineração, Ambiente e Sociedade (PoEMAS), Juiz de Fora, MG, Brasil

Doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia (PPGSA) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Mestre em Sociologia e Antropologia (PPGSA/UFRJ) e Graduada em Ciências Sociais (UFRJ). Tem experiência na área de Sociologia, com ênfase em Sociologia Econômica e nos temas das corporações transnacionais (CTNs) e financeirização. Faz parte dos grupos de pesquisa Política, Economia, Mineração, Ambiente e Sociedade (Poemas) e Desenvolvimento, Trabalho e Ambiente (DTA/UFRJ).

Cristiana Losekann, Universidade Federal do Espírito Santo, Departamento de Ciências Sociais, Vitória, ES, Brasil

Doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Mestre em Ciência Política (UFRGS) e Graduada em Ciências Sociais (UFRGS). Tem experiência na área de movimentos sociais, política ambiental e mobilização do direito em conflitos ambientais. É professora da Universidade Federal do Espírito Santo e faz parte do grupo de pesquisa Laboratório de Pesquisas em Política Ambiental e Justiça (Lapaj).

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Publicado

2024-02-02

Como Citar

Giffoni Pinto, R., Mansur, M. S., & Losekann, C. (2024). Comunidades, modo de usar: desvendando guias, manuais e relatórios da mineração. Revista Brasileira De Estudos Urbanos E Regionais, 26(1). https://doi.org/10.22296/2317-1529.rbeur.202407pt

Edição

Seção

Dossiê Neoextrativismo e autoritarismo