Chamada para o Dossiê Resistências, protagonismos, subordinações na agenda dos eventos globais
Resistências, protagonismos, subordinações na agenda dos eventos globais
Organizadores: Olga Lúcia Castreghini de Freitas (UFPR/UFPA); José Júlio Ferreira Lima (UFPA); Margarida Queirós (Universidade de Lisboa)
Data limite para submissão: 31.05.2026
Data de publicação: v. 29, 2027
A realização da COP30 – Conferência das Partes sobre as mudanças climáticas, promovida pela Organização das Nações Unidas (ONU) e realizada em Belém (PA) em novembro de 2025 –, reacendeu uma série de debates acerca de temas que perpassam desde há muito a realidade brasileira, em especial em sua dimensão urbana e regional, como o protagonismo do Brasil nas discussões ambientais, comprometido em anos anteriores e recentemente retomado; as questões relativas à Amazônia e seu papel na regulação climática mundial e nas estratégias de financiamento para a manutenção da floresta; e a preparação de Belém como cidade anfitriã desse evento.
A revisitação desses temas reaviva o potencial transformador dos megaeventos em contextos urbanos e demanda reflexão crítica e análise a respeito de como esses eventos globais desencadeiam processos de resistências, protagonismos e subordinações às lógicas estabelecidas com base em intencionalidades que, na maior parte das vezes, pouco dialogam com as realidades locais.
Tais eventos globais se realizam mundo afora e apresentam diferentes públicos, natureza, temporalidade e objetivos. A despeito da variedade de atributos e definições, podem ser amplamente reconhecidos como eventos que se deslocam por cidades ao redor do mundo, à procura de viabilidade de meios logísticos, políticos e de engajamento social para sua realização e, não menos importante, para a realização de negócios de toda ordem, como turismo, infraestruturas, financiamento, regulação. As cidades são os locais de ancoragem de sua ocorrência, com repercussões que se efetivam em diferentes setores da vida urbana e social.
Os megaeventos abrangem uma gama ampla de iniciativas: não se trata apenas de eventos esportivos – como os Jogos Olímpicos, as Copas do Mundo de Futebol e os Jogos Mundiais da Juventude – mas também de Exposições Universais e, mais recentemente, cimeiras e conferências globais, como as promovidas pela ONU ou por organismos de cooperação internacional (por exemplo, as reuniões do G20 e as Conferências das Partes). Sua organização articula-se às estratégias de entidades esportivas transnacionais, como a Federação Internacional de Futebol (Fifa) e o Comitê Olímpico Internacional (COI), bem como de organismos intergovernamentais (como a ONU), que disputam agendas, normas e visibilidade internacional. Nesse sentido, megaeventos podem ser entendidos como acontecimentos itinerantes, de grande alcance midiático, que atraem elevado número de visitantes e envolvem custos expressivos – frequentemente assumidos pelo setor público –, além de promoverem transformações nas cidades e regiões anfitriãs e de criarem (ou potencializarem) novos destinos no turismo internacional (Müller, 2015; Freitas, 2025).
Entre as diversas dimensões de análise dos megaeventos, destaca-se a mobilização em torno de sua realização e do potencial legado para cidades e países anfitriões. São alocados recursos, propostas obras para viabilizar a infraestrutura necessária e estimuladas ações estratégicas para facilitar o ingresso de turistas e participantes. Grandes Projetos Urbanos (GPU), em geral com forte apelo icônico, são implementados, ao passo que diferentes tipos de negócios se tornam viáveis. Após a realização do evento, há questionamentos sobre quais efeitos permanecem e como se configura o cenário subsequente.
Em que medida os megaeventos tendem a funcionar como “aceleradores” de políticas urbanas pró-mercado, operando como dispositivos de excepcionalidade capazes de concentrar decisões, recursos e prazos? Sob a promessa de “legados”, obras e GPU podem ser viabilizados por parcerias público-privadas e por arranjos institucionais que, não raras vezes, parecem socializar custos e riscos (garantias, endividamento, manutenção futura de equipamentos), ao mesmo tempo que privatizam benefícios (valorização imobiliária, captura de rendas e oportunidades de negócio).
Que efeitos distributivos resultam desses dispositivos? E até que ponto tais processos se associam a deslocamentos de populações pobres, sob pretexto de higienização, e à intensificação de mecanismos de controle e segurança, com decisões tomadas “fora do procedimento democrático”? Nessa perspectiva, os megaeventos poderiam ser analisados como articuladores da “cidade de exceção”, do branding urbano e de dinâmicas de gentrificação e “limpeza social” (Smith, 1996), compondo – em certos contextos – formas de acumulação por despossessão.
Com efeito, análises recorrentes revelam o endividamento do Estado, o abandono ou mau uso das obras, os processos de corrupção envolvidos no aligeiramento da execução e aplicação dos recursos, o deslocamento das populações pobres que estão no caminho das obras, a valorização imobiliária, entre outras características que apontam certo modus operandi de sua realização: euforia no anúncio, azáfama na execução e falta de avaliação e autocrítica no momento posterior. Nessa economia política do megaevento, riscos e garantias tendem a concentrar-se no setor público, enquanto elites políticas e econômicas capitalizam a “marca” e a visibilidade do evento; dívidas, subutilização de equipamentos e custos de manutenção que recaem sobre o erário podem, posteriormente, abrir oportunidades para novas rodadas de privatização (Flyvbjerg; Budzier; Lunn, 2021; Gaffney, 2016). E as práticas de intervenção urbana tributárias de um modo específico de ver e agir na cidade à luz das premissas do empreendedorismo urbano, do planejamento estratégico e das parcerias público-privadas revelam o alinhamento àquilo que Vainer (2011) denominou “cidade de exceção”, onde as decisões passam ao largo dos mecanismos oficiais e democráticos, sob medida para as necessidades do momento. Por tudo isso, as práticas de realização dos megaeventos reafirmam o que Harvey (2004) tratou como acumulação por despossessão, quando atividades ou locais na cidade saem do controle das classes populares e passam a integrar circuitos de valorização do capital, na maioria das vezes vinculados a interesses extralocais.
A essa perspectiva urbano-regional somam-se outras: i) a discussão geopolítica que aponta que tais eventos seriam a manifestação de um novo tipo de poder global, o soft power (poder suave ou poder brando) (Nye Jr., 2004), no qual o peso dos atores não estatais teria grande relevância nas decisões globais, alterando as formas tradicionais de poder; ii) o processo de apagamento dos conflitos ambientais por meio do greenwashing, envolvendo o financiamento de ações de comunicação e marketing, a fim de que empresas sejam vistas como ecologicamente corretas e socialmente engajadas; e, não menos importante, iii) os novos tipos de diplomacia que emergem dessa realidade, em especial a diplomacia do esporte e a diplomacia climática. Além disso, megaeventos funcionam como “palcos globais” nos quais estados, cidades e empresas negociam imagem, normas e acordos, projetando reputação e liderança e abrindo portas para fluxos de investimento – inclusive sob a rubrica do “verde”. Operam como feiras de negócios de grande escala (contratos de infraestruturas, tecnologias, consultorias e serviços), acelerando políticas de descarbonização urbana e a difusão de modelos de gestão apresentados como “sustentáveis” e exportáveis (best practices), muitas vezes orientados ao curto prazo. Essa transição suscita perguntas distributivas fundamentais – quem a lidera e quem lucra? – e faz reemergir o problema da participação pública, frequentemente limitada a formas de tokenismo no planejamento (Arnstein, 1969). Em certos contextos, megaeventos podem estar na origem de novas injustiças climáticas, e não o contrário, o que torna central a contradiplomacia: movimentos sociais, redes de pesquisa e denúncias de greenwashing e da pegada de carbono associada a viagens, construção e consumo.
Assim, o tema proposto para o dossiê – Resistências, protagonismos, subordinações na agenda dos eventos globais – convida pesquisadoras e pesquisadores a elaborarem análises, a revisitarem pesquisas anteriores e a projetarem perspectivas futuras.
Dois fatores nos motivam a propor este dossiê. Primeiramente, a intensa dedicação de pesquisadoras e pesquisadores brasileiros que consolidaram uma agenda robusta sobre os megaeventos esportivos realizados no país em 2014 e 2016 – agenda que, a nosso ver, ainda carece de avaliações críticas sobre quais elementos se efetivaram (ou não) em termos de transformações urbanas e de reconfigurações regionais. Em segundo lugar, a realização recente da COP30 em Belém do Pará, que não apenas reativou o debate sobre megaeventos no Brasil, como também reposicionou o país na arena internacional da questão ambiental, mobilizando recursos de soft power, greenwashing e diplomacia climática.
Assim, incentiva-se o encaminhamento de textos que tenham convergência com as seguintes preocupações:
i) Visão crítica dos megaeventos que tiveram lugar no Brasil ao longo das últimas décadas e sua efetividade; novas rodadas de realização de eventos capturados pela lógica dos megaeventos, como as Conferências das Partes; as transformações que foram efetivas nas cidades uma década depois dos megaeventos esportivos ocorridos no Brasil e como essas dinâmicas se reproduzem nas demais cidades/países da América Latina;
ii) Megaeventos como indústria e como fenômeno político-econômico: aceleradores de políticas urbanas pró-mercado; custos socializados e benefícios privatizados; flexibilização regulatória e canais democráticos contornados; gentrificação, “limpeza social”, remoções e securitização; riscos fiscais, garantias públicas e endividamento; subutilização/manutenção de equipamentos e oportunidades de privatização no pós-evento.
iii) Megaeventos e cúpulas como “palcos globais”: normas, narrativas e acordos produzidos e difundidos nesses encontros e os atores que os conduzem; medida em que se reforçam modelos e best practices oriundos de centros hegemônicos – incluindo mercados de soluções, consultorias e tecnologias – e seus efeitos nas realidades locais; conflitos distributivos e assimetrias que emergem quando agendas internacionais se traduzem em projetos, financiamentos e regimes regulatórios no território, assim como formas de contestação, reapropriação ou contradiplomacia que podem ser acionadas.
iv) A mobilização política em torno da implementação das estruturas físicas e logísticas necessárias para a realização da COP em Belém tem provocado reflexões sobre as dinâmicas urbanas na Amazônia. Tais discussões envolvem aspectos relacionados tanto à conservação quanto ao comprometimento do bioma, considerando as condições do relevo amazônico e os modos de habitar, circular e consumir nas cidades como parte das pautas internacionais sobre os impactos das mudanças climáticas.
v) No período pós-COP30, repercussões, resistências e mobilizações que podem subverter (ou não) lógicas da diplomacia climática emergem como centro do debate que questiona o quanto o Brasil seria um ator global no campo do soft power e do protagonismo em termos de realização de conferências ambientais.
Para tanto, espera-se a contribuição de pesquisadoras e pesquisadores de Planejamento Urbano e Regional e áreas afins – como Desenvolvimento Regional, Geografia, Economia, Arquitetura e Urbanismo, Sociologia, Turismo, Esportes e Direito – com trabalhos empíricos e/ou teórico-críticos que examinem disputas de agenda, arranjos institucionais, fluxos financeiros e regimes regulatórios, além de efeitos distributivos, territoriais e socioambientais (incluindo a pegada de carbono) e de formas de resistência e contradiplomacia associadas aos eventos globais.
Referências
ARNSTEIN, S. R. A Ladder of Citizen Participation. Journal of the American Planning Association, v. 35, n. 4, p. 216-224, 1969.
FLYVBJERG, B.; BUDZIER, A.; LUNN, D. Regression to the Tail: Why the Olympics Blow Up. Environment and Planning A: Economy and Space, v. 53, n. 2, p. 233-260, 2021. DOI:10.2139/ssrn.3686009.
FREITAS, O. L. C. de. A COP30 como megaevento: recorrências nas práticas de intervenção urbana. In: FREITAS, O. L. C. de; SANTOS, T. V. dos (org.). A COP30 como megaevento: repercussões espaciais em uma metrópole amazônica. Belém: Amazônica Bookshelf, 2025. p.22-44.
GAFFNEY, C. Megaeventos e dinâmicas sócio-espaciais no Rio de Janeiro, 1919-2016. Revista Brasileira de Estudos do Lazer, Belo Horizonte, v. 3, n. 3, p. 23-45, set./dez. 2016.
HARVEY, D. O novo imperialismo. São Paulo: Loyola, 2004.
MÜLLER, M. What makes an event a mega-event? Definitions and sizes. Leisure Studies, [s. l.], v. 34, n. 6, p. 627-642, 2015.
NYE JR., J. S. Soft Power: The Means to Success in World Politics. New York: Public Affairs, 2004.
SMITH, N. The New Urban Frontier: Gentrification and the Revanchist City. New York: Routledge, 1996.
VAINER, C. Cidade de exceção: reflexões a partir do Rio de Janeiro. In: ENCONTRO NACIONAL DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA EM PLANEJAMENTO URBANO E REGIONAL, 14., 2011, Rio de Janeiro. Anais [...]. Rio de Janeiro: Anpur, 2011. p. 1-15.





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