Despossessão, violências e a potência transformadora: um olhar interseccional sobre as remoções

Autores

  • Larissa Gdynia Lacerda Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, São Paulo, SP, Brasil https://orcid.org/0000-0002-4357-6988
  • Paula Freire Santoro Universidade de São Paulo, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, São Paulo, SP, Brasil https://orcid.org/0000-0002-3168-0868
  • Isabella Berloffa Alho Universidade Federal do ABC, Engenharia Ambiental e Urbana, Santo André, SP, Brasil
  • Gisele Aparecida de Sá Brito Instituto de Referência Negra Peregum, Clima e Cidades, São Paulo, SP, Brasil https://orcid.org/0000-0002-2437-4985
  • Marina Kohler Harkot † In Memorian

DOI:

https://doi.org/10.22296/2317-1529.rbeur.202231pt

Palavras-chave:

Despossessão, Remoção, Feminismos Interseccionais

Resumo

O presente artigo parte da seguinte questão: o que significa pensar a remoção e suas consequências com base na narrativa de mulheres que enfrentam esses processos? Ao recuperar as narrativas e as reflexões de mulheres que sofreram remoção ou se encontram em situação de ameaça, é possível iluminar dimensões do processo que podem passar despercebidas ou ser encobertas por análises cujo enfoque recai sobre outras dimensões, que não passam por uma reflexão sobre as características de quem está sendo removido, e sobre o significado disso diante da totalidade do fenômeno. Ao lançar luz sobre a multiplicidade dos impactos decorrentes dos processos de remoção, pode-se retomar a própria noção conceitual para, então, formulá-la desde baixo, quer dizer, a partir das várias experiências que a compõem. Afinal, o que é remoção? O que significa viver sob a ameaça de perder o lugar onde se vive?

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Biografia do Autor

Larissa Gdynia Lacerda, Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, São Paulo, SP, Brasil

Socióloga. Mestra em Planejamento Urbano e Regional pelo Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPPUR/UFRJ) e doutoranda no Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP). É pesquisadora no grupo Cidade e Trabalho, no mesmo departamento, e no LabCidade (FAUUSP), onde integra a pesquisa “Cidade, gênero e interseccionalidades” e a rede Observatório de Remoções. Bolsista CNPq.

Paula Freire Santoro, Universidade de São Paulo, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, São Paulo, SP, Brasil

Arquiteta urbanista, Profa. Dra. da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo (FAUUSP). Desde 2014 coordena o LabCidade, onde conduz a pesquisa “Cidade, gênero e interseccionalidades”, com o objetivo de subsidiar a reflexão crítica sobre formas de planejamento urbano, introduzindo conceitos, teorias e práticas generificados, racializados e interseccionalizados na leitura, análise e proposta de transformação do território. Graduada, mestre e doutora (2012) pela FAUUSP, fez parte do doutorado na Escola Tècnica Superior d’Arquitectura de Barcelona, da Universidade Politécnica da Catalunha (ETSAB-UPC), orientada pela Profa. Zaida Muxí. Trabalhou no Ministério Público do Estado de São Paulo, no Instituto Pólis e no Instituto Socioambiental (ISA). Bolsista produtividade CNPq 2 desde 2020 (Processo nº 312011/2019-9).

Isabella Berloffa Alho, Universidade Federal do ABC, Engenharia Ambiental e Urbana, Santo André, SP, Brasil

Graduanda em Engenharia Ambiental e Urbana pela Universidade Federal do ABC (UFABC) e pesquisadora do LabJuta (UFABC).

Gisele Aparecida de Sá Brito, Instituto de Referência Negra Peregum, Clima e Cidades, São Paulo, SP, Brasil

Jornalista. Mestra em Planejamento Urbano pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAUUSP). Pesquisadora do LabCidade (FAU/USP) entre 2016 e 2021. Atualmente é coordenadora da área de Clima e Cidades no Instituto de Referência Negra Peregum.

Marina Kohler Harkot, † In Memorian

In memoriam. Socióloga pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). Mestra e doutoranda em Planejamento Urbano pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da mesma universidade (FAUUSP). Foi ativista e cicloativista. Foi pesquisadora do LabCidade até 2019, período no qual integrou a pesquisa “Cidade, gênero e interseccionalidades”. Organizou o seminário Cidade, gênero e interseccionalides no Centro de Pesquisa e Formação do SESC em janeiro de 2019, que resultou em um especial do podcast #pelacidade. Fez várias consultorias, dentre elas para o RISCO e para o Banco Mundial. Tinha 28 anos quando, ao voltar de bicicleta para casa, morreu atropelada por um motorista que não parou para prestar socorro. Seu projeto de doutorado, incompleto, pretendia investigar, em uma perspectiva decolonial e interseccional, como se dá a construção de territórios (corpo e espaço urbano) a partir de subjetividades.

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Publicado

2022-11-18

Edição

Seção

Artigos - Território, Cidadania e Direitos

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