Henri Lefebvre e o terceiro espaço: por uma outra leitura crítica da urbanização latino-americana

Autores

  • Carolina Akemi Morita Nakahara Universidade de São Paulo, Instituto de Arquitetura e Urbanismo, São Carlos, SP, Brasil https://orcid.org/0000-0002-4297-6656
  • Mariana Wilderom Universidade São Judas Tadeu, Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo, São Paulo, SP, Brasil https://orcid.org/0000-0003-4456-1224

DOI:

https://doi.org/10.22296/2317-1529.rbeur.202612pt

Palavras-chave:

Espaço urbano, Direito à cidade, Insurgências urbanas, Monumentalidade, Terceiro espaço, Poesia do excesso, América Latina

Resumo

Partindo da noção de “terceiro espaço” em Henri Lefebvre, este artigo propõe uma abordagem crítica da produção do espaço urbano centrada na potência simbólica, poética e política dos usos coletivos e não normativos. Entendido como espaço de apropriação, transgressão e produção de sentido, o terceiro espaço se configura como chave metodológica e epistemológica para reimaginar o urbano a partir da América Latina. Essa perspectiva não apenas coloca em xeque os paradigmas funcionalistas da urbanização neoliberal, mas também ultrapassa epistemologias latino-americanas pretéritas ainda carentes de uma abordagem espacial. De caráter exploratório-analítico e teórico-crítico, a investigação examina experiências urbanas contemporâneas que ativam a dimensão simbólica da cidade – como ocupações e equipamentos públicos – para identificar categorias críticas e formas emergentes de produção do espaço. Ao reinscrever o gozo, o excesso e a alteridade na experiência espacial, argumenta-se que tais práticas constituem campos empíricos de reflexão e experimentação, abrindo brechas para uma produção de conhecimento urbano situada, sensível e insurgente.

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Traduções deste artigo

Biografia do Autor

Carolina Akemi Morita Nakahara, Universidade de São Paulo, Instituto de Arquitetura e Urbanismo, São Carlos, SP, Brasil

Professora doutora no Instituto de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (IAU-USP), na área de concentração Teoria e História da Arquitetura e do Urbanismo. Graduada em Arquitetura e Urbanismo pela Escola de Engenharia de São Carlos (EESC-USP, 2004) e em Filosofia pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH-USP, 2021). Mestre em Arquitetura e Urbanismo pelo IAU-USP (2011) e doutora em Arquitetura e Urbanismo pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design (FAU-USP, 2021), com a tese Do habitat ao habitar poiético: participação, apropriação e utopia em Henri Lefebvre. Membro dos grupos de pesquisa Núcleo de Estudos das Espacialidades Contemporâneas (NEC/IAU-USP) e Pensamento Crítico e Cidade Contemporânea (PC3/FAU-USP). Atualmente, desenvolve pesquisas no campo do pensamento crítico urbano, com ênfase nos sentidos do habitar e suas relações com a poiesis; nas tensões entre participação e apropriação em Arquitetura e Urbanismo; e nas dialéticas entre práxis e poiesis na produção do espaço.

Mariana Wilderom, Universidade São Judas Tadeu, Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo, São Paulo, SP, Brasil

Docente permanente no Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Arquitetura e Urbanismo (PGAUR) na Universidade São Judas Tadeu. Arquiteta e urbanista pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP, 2009), além de mestre (2014), doutora (2019) e pós-doutoranda (2021-2025) pela mesma instituição. Foi pesquisadora visitante na Delft University of Technology (TUDelft) em 2018 e 2023. Integra o grupo de pesquisa Pensamento Crítico e Cidade Contemporânea (PC3/FAU-USP) desde 2015 e a Red Iberoameriana de Vivienda Social Sostenible (Rediviss) desde 2023. Atua em pesquisas sobre arquitetura e cidade contemporânea na América Latina; projeto urbano; história, teoria e crítica da arquitetura moderna e contemporânea; e arquitetura educacional. É autora de capítulos dos livros Architecture as Built Criticism (Parkbooks, 2025), Social Urbanism in Latin America (Springer, 2019) e Marcenaria Baraúna: móvel como arquitetura (Olhares, 2017). Em 2025, foi nomeada membro do Comité International des Critiques d’Architecture (Cica). Foi diretora de ensino e coordenadora da plataforma de cursos do Instituto de Arquitetos de São Paulo (IABSP, 2020-2022).

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Publicado

12-05-2026

Como Citar

Nakahara, C. A. M., & Wilderom, M. (2026). Henri Lefebvre e o terceiro espaço: por uma outra leitura crítica da urbanização latino-americana. Revista Brasileira De Estudos Urbanos E Regionais, 28(1). https://doi.org/10.22296/2317-1529.rbeur.202612pt